ZOO STORY
Edward Albee /
Adaptação livre: Coelho De Moraes
Personagens:
Mary – Uma mulher contida. Tem medo de se expor para o
mundo. Esconde-se atrás de óculos e do livro que sempre lê. Veste um tailleur,
usa óculos de aros. Suas roupas e suas maneiras sugerem uma mulher cheia de não
me toques.
Lúcia - Uma mulher extrovertida, sem medir muito as
consequências; vestida com desleixo. A perda de sua graça física não devia
sugerir devassidão; para ser mais exato, ela parece, antes cansada e acabada. Seca.
Às vezes durona.
Haverá uma sutil relação de atração entre as mulheres mas
isso não fica muito evidente.
CENA: Uma tarde de
domingo no verão época atual. Há dois bancos, sendo um de cada lado do palco,
mas ambos de frente para a platéia. Atrás deles: árvores, folhagens, céu. Mary
está sentada num dos bancos. Marcações do palco: quando sobe a cortina, ela
está sentada no banco da direita. Está lendo um livro. Pára de ler, por um
momento, enquanto limpa os óculos. Volta à leitura. Entra Lúcia.
Lúcia - Vim do Jardim Zoológico, (Mary não a nota). Eu
falei. Eu falei que estive no zoológico! Ei ,sua, eu estive no Jardim
Zoológico!
Mary - Ein?. . .
O quê?. . .
Desculpe, a senhora estava falando comigo?
Lúcia - Eu fui ao zoológico e, depois, caminhei até aqui.
Essa é a Av. Ipiranga ? (Apontando além da platéia).
Mary - Bem. .. eu. .
. acho que sim. . .
Deixa eu ver. . .
Ah, é; é sim.
Lúcia - E que rua transversal é aquela da direita?
Mary - Aquela? Oh, aquela é a Av. São João.
Lúcia - O Jardim Zoológico fica na Miguel Stefano; logo eu
estou caminhando para o norte.
Mary - (Ansiosa para continuar a leitura) – É, parece que sim.
Lúcia - O velho norte, o bom norte.
Mary - (Levemente,
por reflexo.) Ah, ah.
Lúcia - (Depois de
uma breve pausa) - Mas não é bem o norte.
Mary - Não... não é bem o norte. Mas nós.., nós o chamamos
norte. Para o norte.
Lúcia - (Observa
Mary que, ansiosa para se ver livre dela, arruma o livro na sua bolsa para ir
embora ) Olha senhora, você não tem câncer ?
Mary - (Levanta os olhos, primeiramente aborrecida, depois
sorri. ) Não, senhora; não tenho.
Lúcia – É ... porque vemos pessoas que tem câncer na boca;
e tem que usar uma daquelas coisas que Freud usava depois que arrancaram um
lado inteiro do queixo dele. Como é mesmo que se chamava aquilo?
Mary - (Sem jeito. ) Um aparelho protético.
Lúcia - Isso mesmo, Um aparelho protético. Você é uma
mulher instruída, não é? Você é médica?
Mary - Oh, não. É que eu li isso em algum lugar; acho que
foi no ''Estadão". (Ela volta ao seu livro. )
Lúcia - Bem, o ''Estadão" não é para qualquer um.
Mary - Não, acho que não.
Lúcia - (Depois de uma pausa) Puxa; estou contente de saber
que aquela é a Av. Ipiranga.
Mary - (Vagamente) - É?
Lúcia - Eu não gosto muito do lado oeste do parque.
Mary - Não? (Com prudência, mas interessada) por quê?
Lúcia - (Fora do assunto) – Não sei.
Mary – ( Volta para o seu livro) – Oh !
Lúcia - (Pára por alguns segundos, olhando Mary, que,
finalmente, levanta os olhos, outra vez, perplexa)Você se incomoda de conversar
comigo?
Mary - (Levemente
incomodada)Bem. . .
não, não.
Lúcia - Bem.., mas não está querendo conversar. É, você se
importa sim.
Mary - Não, eu, sinceramente, não me importo.
Lúcia – Você se
importa sim.
Mary - (Finalmente, decidida) Não, na verdade, eu não me
importo, absolutamente.
Lúcia - É... está fazendo um bonito dia.
Mary (Fixa, desnecessariamente, o céu ) É .., é sim; está
muito bonito.
Lúcia - Eu estive no Jardim Zoológico,
Mary - Você já me disse isso, antes. . . não disse?
Lúcia - Amanhã você vai ler sobre isso nos jornais, se você
não assistir na sua televisão hoje à noite. Você tem televisão, não tem?
Mary - Tenho sim. Nós temos duas; uma para as crianças.
Lúcia - Você é casada?
Mary - (Satisfeita, com ênfase) Sim; é lógico que sou.
Lúcia - Bem, mas ser casada não é uma obrigação.
Mary - Não.., claro que não.
Lúcia - Você tem marido.
Mary - (Espantada pela aparente falta de relação) Claro!
Lúcia - E você tem filhos.
Mary - Tenho dois.
Lúcia - Meninos?
Mary - Não, meninas.., duas meninas.
Lúcia - Mas você queria meninos.
Mary - Bem... naturalmente, toda mulher quer dar um filho,
ao marido mas...
Lúcia – ( Zombando ) Só que você não descobriu a receita.
Mary - (Chateada) Eu
não quis dizer isso. .
Lúcia – Vocês não pretendem ter mais filhos, pretendem?
Mary - (Um pouco
distante) Não. (Voltando-se aborrecida. ) Porque você pergunta? Como você pode
saber?
Lúcia - Pelo jeito de você cruzar as pernas; alguma coisa
na sua voz; ou, talvez, seja somente um palpite .É por causa de seu marido?
Mary - (Furiosa) - Isso não é da sua conta. (Lúcia diz sim
com a cabeça . Mary acalmando-se.) Bem, você tem razão. Nós não vamos ter mais
filhos.
Lúcia - (Suave) É
... você não descobriu a receita.
Mary - (Perdoando) É.. . acho que não.
Lúcia - E, agora , que mais?
Mary - O que é que você estava falando sobre o Jardim
Zoológico. . . Que eu
ia ler, ou ver?...
Lúcia - Vou lhe contar daqui a pouco. Você se importa que
eu faça mais perguntas.
Mary - Oh, não!
Lúcia - Eu lhe digo porque; eu não falo com muita gente só
para dizer coisas, como: "me dá uma cerveja", ou "onde é o
toillete ", ou "que hora o filme começa", ou ainda, "tira a
mão daí, rapaz" Você sabe. . , coisas assim.
Mary - Não, não compreendo.
Lúcia - Mas de vez em quando eu gosto de conversar com
alguém; conversar, realmente; gosto de ficar conhecendo esse alguém; de saber
tudo sobre ele.
Mary - (Sorrindo ,mas ainda sem jeito) - E eu fui escalada
pra hoje?
Lúcia - Numa ensolarada tarde de domingo como essa? Quem
melhor do que você, uma mulher bem casada, com duas filhas e. . . um cachorro? (Mary sacode a
cabeça). . . Não?
Dois cachorros. (Mary sacode a cabeça. ) Nenhum cachorro? (Mary sacode a cabeça
melancolicamente.)Oh, que pena! Mas você parece gostar de animais. Gatos?
(Mary faz que sim com a cabeça) Gatos?
Mas isso não pode ter importância para você, mas... para seu marido. . . suas filhas. (Mary faz que sim
com a cabeça) Há mais alguma coisa que eu deva saber?
Mary - (Limpando a garganta)Há... Há ainda dois periquitos.
. . um para cada uma
de minhas filhas.
Lúcia - Pássaros.
Mary - Eles ficam presos numa gaiola no quarto de minhas
filhas.
Lúcia - São doentes?... Os pássaros?
Mary - Creio que não.
Lúcia - É pena. Se fossem doentes você poderia soltá-los e
os gatos podiam comê-los e, talvez, morrer.(Mary fica pálida por um momento e,
depois, sorri) E que mais?
Mary - Eu. . .
trabalho na direção de uma... uma pequena editora. . . nós publicamos livros escolares.
Lúcia – Ótimo, excelente. Quanto é que você ganha?
Mary - (Ainda
animada) Espera aí...
Lúcia - Oh, vamos, diga.
Mary - Bem, eu ganho cerca de R$ 1.600.00 reais por mês, mas nunca ando com
mais de quarenta reais no bolso no caso de você seja... uma assaltante. . .
Lúcia - (Ignorando o
dito acima) Onde é que você mora? (Mary está relutante.) Olha, eu não
pretendo roubar você, nem seus passarinhos, nem seus gatos ou suas filhas.
Mary - (Muito alto)
- Eu moro entre a Av. Paulista e a Consolação.
Lúcia - Não foi difícil dizer, foi?
Mary - Eu não quis parecer. . . é que você propriamente não conversa; você só faz
perguntas. E eu sou... eu sou, geralmente, reticente. Por que você fica parada
aí?
Lúcia - Eu vou andar por aqui, durante algum tempo e, de
vez em quando, eu me sento. (Lembrando-se) Espere até você ver a expressão da
cara dela.
Mary - A cara de quem? Olha aqui; é alguma coisa sobre o
Jardim Zoológico?
Lúcia - (Distante) -
O quê?
Mary - O zoológico. Alguma coisa sobre o Jardim Zoológico.
Lúcia - O zoológico?
Mary - Você o
mencionou várias vezes.
Lúcia -(Ainda distante, mas voltando bruscamente) O Jardim
Zoológico. O Jardim Zoológico? Ah, sim, o zoológico. Eu estive lá antes de vir
para cá. Já lhe disse isso. Diga, qual é a linha divisória entre a alta- média
classe- média e a baixa - alta classe - média?
Mary - Minha cara amiga, eu. . .
Lúcia - Não me chame de cara amiga.
Mary - (Infeliz) Eu estava apenas, querendo ser amável.
Desculpe. Mas você compreende, sua pergunta sobre classe me desconcertou.
Lúcia - E quando você se desconcerta, você fica amável?
Mary - Eu... eu não me expresso bem, às vezes. (Tem uma
piada sobre si mesmo) Eu sou uma editora, não. . . uma escritora.
Lúcia - (Divertindo - se, mas não achando graça) Está bem.
Mas a verdade é que você estava querendo me agradar.
Mary - Você não precisa falar assim.(Neste ponto, Lúcia
pode começar a caminhar pelo palco lenta, mas crescente resolução e autoridade,
medindo os passos de tal maneira que a longa fala sobre o cachorro vem no ponto
mais alto da curva. )
Lúcia - Está bem. Quais são os seus escritores favoritos?
Raquel de Queiroz e Augusto dos Anjos?
Mary - (Cautelosa) Bem, gosto de inúmeros escritores; tenho
uma considerável. . .
digamos, liberdade de gosto. Esses dois que você citou são excelentes, cada um
no seu gênero. (Entusiasmando-se) Raquel de Queiroz, naturalmente. . , é de
longe a melhor dos dois, mas Augusto dos Anjos tem seu lugar. . . em nossa.. . literatura.
Lúcia - Chega.
Mary - Desculpe.
Lúcia - Você sabe o que eu fiz antes de ir ao Jardim
Zoológico, hoje? Andei toda a Av. Miguel Stefano .
Mary - Ah, você mora na Água Funda? (Isso parece interessar
Mary).
Lúcia - Não. Tomei um ônibus até lá de modo que eu pudesse
caminhar a Av. inteira até o zoológico. Essa é uma das coisas que uma pessoa
tem que fazer; às vezes, uma pessoa tem que se afastar muito do caminho para
atingir um ponto relativamente próximo.
Mary - (Quase com desagrado ) Ah, eu pensei que você
morasse na Água Funda.
Lúcia - O que é que você está tentando dizer? Encontrar um
sentido nas coisas? Colocar as coisas no lugar? Usar o velho truque da curiosa?
Bem, é fácil eu lhe explico; moro numa pensão de quatro andares, no Bexiga.
Moro no último andar, nos fundos , meu quarto é ridiculamente pequeno e uma das
paredes é feita de tábua; essa parede separa meu quarto de um outro, também,
incrivelmente pequeno; por isso eu acho que os dois quartos foram antes um
quarto só, mas não tão pequeno. O quarto do outro lado de minha parede de tábua
é ocupado por uma "bicha negra, que sempre deixa a porta seu quarto
aberta; bem, nem sempre, mas sempre que ela está depilando as sobrancelhas, o
que ela faz como um ritual budista. Esta bicha negra tem dentes estragados. que
não é comum; tem também .quimono japonês, o que é também bastante raro; e usa o
quimono para ir e voltar ao banheiro, no hall. O que é bastante freqüente. O
que eu quero dizer é que ela vive indo ao banheiro. Mas nunca me chateia; nunca
leva ninguém para seu quarto .Tudo que ela faz é depilar as sobrancelhas, usar
seu quimono e ao banheiro. Já os dois quartos frente no meu andar são um pouco
maiores eu acho; mas também não são grandes. Tem uma família porto-riquenha num
deles; o marido, a mulher e algumas crianças; não sei quantas. Essa gente me
diverte um bocado. E no outro quarto da frete tem alguém morando lá, mas eu não
sei quem é. Nunca vi, nunca, nunca .Jamais.
Mary - (Embaraçada ) - Por quê .Por quê... Por quê você
mora nessa casa?
Lúcia - (Distante, outra vez) Não sei.
Mary - Não me parece um lugar dos mais agradáveis. . . onde você mora.
Lúcia - Bem, não; não é um apartamento como os do seu
bairro. Mas não tenho um marido, duas filhas, dois gatos e dois periquitos. O
que eu tenho : artigos de toillete, algumas roupas, um fogareiro, que eu não
devia ter, um abridor de latas do tipo que funciona como uma chave, você sabe;
uma faca, dois garfos, e duas colheres, uma grande e uma pequena; três pratos,
uma xícara, um pires, um copo, duas molduras para fotografias, ambas vazias,
uns oito ou nove livros, uma revista pornográfica, um baralho comum, uma velha
máquina de escrever Olivetti que só bate as letras maiúsculas e um pequeno
cofre sem fechadura, que tem dentro. .. o quê? Pedras! Algumas pedras que eu
apanhei na praia, quando era garota; debaixo delas, estão algumas cartas
amassadas. . .
cartas de "pedidos'', por favor,
por que você não faz isso; por favor, quando você fará aquilo. E cartas de
"perguntas", também: Quando você vai escrever? Quando você virá?
Quando? Quando? Quando? Estas cartas são as mais recentes.
Mary - (Mal humorada) E aquelas duas molduras vazias?
Lúcia - Não vejo necessidade nenhuma de maior explicação.
Não está claro? Não tenho fotografias de ninguém para colocar nelas.
Mary - Seus pais... , talvez. ..um namorado...
Lúcia - Você é uma mulher delicada e de uma incoerência
verdadeiramente invejável. Mas minha querida mãe e meu querido pai estão
mortos... e isso me entristece ,você sabe. . . Mas aquela conhecida dupla de
"vaudeville" está representando agora nas nuvens e eu não sei como
poderia contemplá-los arrumadinhos e emoldurados num quarto. Além disso, ou,
antes disso, para ser exata, a querida mamãe abandonou o querido papai quando
eu tinha pouco mais de dez anos; ela embarcou numa excursão adúltera, através
dos Estados nordestinos... uma tournée que durou um ano... e a companhia mais
constante que ela teve...entre outros. .
. entre muitos outros.., era um tal Senhor Bartolomeu.. Pelo
menos, foi o que o querido papai me contou, depois que ele foi ao nordeste. . . e voltou. . , trazendo o corpo
dela. Nós tínhamos recebido a notícia, veja você, entre o Natal e o Ano Novo,
de que a querida mamãe tinha ido desta vida para outra melhor num daqueles
imundos cortiços da Paraíba. E morta, ela era menos bem-vinda. Eu quero dizer
que a querida mamãe não passava de um corpo rígido e frio. De qualquer maneira,
o meu bom e velho pai celebrou o Ano Novo por umas duas semanas e, depois, se atirou
na frente de um ônibus, o que mais ou menos resolveu este problema familiar.
Bem, não; depois então, teve a irmã da querida mamãe que não era dada nem ao
pecado nem às consolações do álcool. Eu me mudei para a sua casa e só me
recordo da severidade de tudo que ela fazia: dormir, comer, trabalhar, rezar.
Ela caiu morta nas escadas de seu apartamento, que, então, era também o meu, na
tarde de minha formatura no colégio. Uma piada horrivelmente sem graça, se você
quer saber o que eu acho disso tudo....
Mary - Que coisa!... que coisa !...
Lúcia - Que coisa, O quê? Isso tudo já foi há tanto tempo que eu já não
consigo integrar-me na história com a mesma emoção ou... como se eu fosse
personagem dela. Talvez, agora, você possa compreender, entretanto, porque a
querida mamãe e o querido papai estão sem moldura. Qual é ó seu nome? Seu primeiro nome?
Mary- Mary.
Lúcia - Eu tinha
esquecido de perguntar. O meu é Lúcia.
Mary (Com ligeiro riso nervoso) Alô, Lúcia.
Lúcia (Responde com a cabeça) - Agora, vejamos: qual é a
razão para ter a fotografia de um homem, especialmente em duas molduras? Pois
eu tenho duas, você se lembra. Nunca deito com um homem mais de uma vez e a
maioria deles não se deixaria fotografar
no quarto num momento desses. Seria estranho
e acho que triste, também.
Mary - Eles?
Lúcia - Não. O que é triste é que eu não consiga estar com
um homem mais de uma vez. Nunca fui capaz de usar o sexo com, ou como se diz?... ter relações com alguém mais do
que uma vez. Uma vez só; e acabou-se... Oh!, espere! Quando eu tinha quinze
anos... e coro de vergonha só em me lembrar que a minha puberdade tenha vindo
tanto tempo depois... eu era uma h-o-m-o-s-s-e-x-u-a-1. Eu quero dizer
sapatão... (Muito rápido...) sapatão... com todos os "ss" e
"tt" com sinos badalando, bandeiras desfraldadas ao vento. E durante
onze dias, eu me encontrava, ao menos duas vezes por dia, com a filha do
superintendente do parque. . .
uma moça grega, cujo aniversário era no mesmo dia do meu, só que ela era um ano
mais velha. Eu me sentia muito apaixonada... mas talvez tenha sido só atração.
E, agora, eu gosto de homens de programa; gosto sim, de verdade. Mas por uma
hora.
Mary- Bem, isto me parece perfeitamente compreensível. . .
Lúcia ( irada ) - Olha aqui! Você vai me aconselhar a casar
e criar periquitos?
Mary (Também irada)Deixe os periquitos em paz! E continue solteira se
você quiser. Isso não é da minha conta. Não fui eu quem começou essa conversa.
.. e. . .
Lúcia - Está bem, está bem. Desculpe. Então? Você está
zangada?
Mary - (Rindo) Não, não estou.
Lúcia - (Aliviada) Ótimo. (Olhando ao seu tom anterior)
interessante que você me tenha perguntado sobre as molduras. Pensei que, você
fosse me perguntar sobre as revistas pornográficas.
Mary - (com um sorriso de quem sabe do que se trata) Eu
conheço essas revistas.
Lúcia- Não é o caso. (Ri) Eu acho que quando você era
garota, você e suas amigas passavam essas revistas uma para a outra, ou você
tinha a sua?
Mary - Eu acho que muitas de nós tínhamos.
Lúcia - E você jogou fora pouco antes de se casar.
Mary - Olha aqui. Eu nunca mais precisei dessas coisas,
depois que fiquei mais velha.
Lúcia- Não?
Mary- (Embaraçada) Eu prefiro não falar sobre esse assunto.
Lúcia- Então não fale. Além disso, eu não estava tentando
descobrir sua vida sexual, depois da adolescência e em épocas difíceis; onde eu
queria chegar era à diferença de valor entre as revistas pornográficas quando
você é garota e revistas pornográficas quando você é mais velha. Essa diferença
é que quando, você é garota você usa as revistas como um substituto para a
experiência real e quando você é mais velha você usa a experiência real como um substituto para a fantasia. Mas creio que
você prefere ouvir o que me aconteceu no Jardim Zoológico.
Mary - (Entusiasmada) Oh, sim, no zoológico. (Depois, sem
jeito) Quer dizer. .. se você...
Lúcia – Deixe-me contar, porque fui lá... bem, deixe-me
contar-lhe algumas coisas antes. Já lhe falei sobre o quarto andar da pensão
onde moro. Acho que os quartos são melhores nos andares de baixo. Acho que são,
não sei. Não conheço ninguém no terceiro nem no segundo andar. Oh, espere aí!
sei que há uma senhora morando no terceiro andar, na parte da frente. Eu sei,
porque ela chora o tempo todo. Toda vez que saio ou chego. Toda vez que passo
pela porta de seu quarto, sempre a ouço chorando, um choro abafado, mas muito
definido... Muito definido mesmo. Mas quero falar é do dono da pensão e
sobretudo de seu cachorro. Eu não gosto de usar palavras muito duras para
descrever pessoas. Não gosto. Mas o dono da pensão é gordo, feio, mesquinho,
estúpido, sujo, ordinário, bêbedo, um saco de imundice, E você pode ter notado
que, como muito raramente sou irreverente, não posso descrevê-lo tão bem quanto
seria possível.
Mary - Você o descreve. . . com muito realismo.
Lúcia- Obrigado. De qualquer maneira, ele tem um cachorro e
eu vou lhe falar sobre o cachorro, pois ele c seu cachorro são porteiros de
minha residência. O homem já é bastante desagradável; ele investe pelo final de
entrada, espionando para ver se eu não levo coisas ou gente para o meu quarto;
e quando ele já tomou seus dois ou três copos de pinga com limão no meio da
tarde, ele sempre me faz parar no final e agarra o meu casaco ou meu braço e
aperta seu corpo contra o meu para me conservar num canto de tal maneira que
ele possa conversar comigo. Você não pode imaginar o que é o cheiro de seu
corpo e o seu bafo... e em algum lugar do fundo daquele cérebro do tamanho de
uma ervilha, um órgão que desenvolveu apenas o suficiente para fazê-lo comer,
beber, falar, ele oferece uma nojenta paródia do desejo sexual. E sou eu, Mary, sou eu o objeto de sua viscosa
sexualidade.
Mary - É revoltante. É horrível.
Lúcia- Mas eu achei uma maneira de conservá-lo à distância.
Quando ele conversa comigo, quando ele me espreme com seu corpo e cochicha
sobre seu quarto, tentando convencer-me a ir até lá, digo, simplesmente: mas
amor, ontem não foi o bastante para você, e anteontem? Então, ele se
desconcerta, aperta os seus pequeninos olhos, ele sua um pouco e, então, Mary. . . e neste momento é que eu acho
que pratico algo de bom naquela atormentada casa... um sorriso ingênuo começa a
se formar no seu rosto indescritível, e ele dá risinhos e solta gemidos
enquanto recorda o ontem e o anteontem; enquanto crê e revive o que nunca
aconteceu. Então, ele me larga e caminha para junto daquele monstro negro que é
o seu cachorro e, finalmente, volta para seu quarto. E eu estou salva, até o
nosso próximo encontro.
Mary - Isso é tão.., incrível. Acho difícil acreditar que
gente assim exista, realmente...
Lúcia- (Um pouco zombeteira) - É coisa que se lê nos
livros, não é?
Mary (Seriamente) - É.
Lúcia - Seria melhor que tudo isso não passasse de ficção.
Você tem razão, Mary. Bem, o que eu estou querendo lhe contar é sobre o seu
cachorro; e vou lhe contar agora.
Mary (Nervosamente) Ah, sim; o cachorro.
Lúcia - Não vá embora. Você não está pensando em ir, está?
Mary - Bem. . .
não.
Lúcia- (Como se dirigisse a uma criança) - Porque depois de
eu lhe contar sobre o cachorro, sabe, então... então eu vou falar sobre o que
aconteceu no Jardim Zoológico.
Mary- (Sorrindo timidamente) - Você. . . você é cheia de histórias, não
é?
Lúcia - Você não é obrigada a escutar. Ninguém está
prendendo você aqui; lembre-se disso. Ponha isso na cabeça.
Mary- Eu sei.
Lúcia - Sabe mesmo? ótimo. (A seguinte e longa narrativa me
parece que pode ser feita com uma grande movimentação, para se obter com ela um
efeito hipnótico em Mary e na platéia, também. Alguns movimentos específicos
foram sugeridos, mas o diretor e a atriz que interpreta Lúcia poderão obter
melhor resultado por si mesmos.) Bom. (como se lesse num enorme cartaz) a
história de Lúcia e o cachorro , novamente natural. ) O que vou lhe contar tem
algo que ver com as razões pelas quais às vezes é necessário que uma pessoa se
afaste muito do caminho para atingir um ponto relativamente próximo ou também
seja somente eu que penso assim. Em todo o caso, foi por isso que fui ao Jardim
Zoológico hoje e porque caminhei em direção ao norte... até que cheguei aqui.
Bem. O cachorro, eu acho que já lhe disse, é um verdadeiro monstro negro; tem
uma cabeça desproporcionalmente grande, orelhas pequenas, bem pequenas, e
olhos... injetados de sangue, talvez porque estejam infeccionados; quanto ao
corpo, você pode ver as costelas dele através da pele.. O cachorro é negro,
todo negro; todo negro com exceção dos olhos avermelhados, e. . . sim. . . uma ferida aberta em sua pata
dianteira. . .
direita. . . que
também é vermelha. E, ah, o pobre monstro, eu acho que é um cachorro velho
mesmo. . .
certamente, um cachorro velho e maltratado... Quase sempre tem uma ereção...
também vermelha, portanto. E. . .
que mais?... ah, sim; há aquela cor cinza, amarela, esbranquiçada, também,
quando ele mostra as presas. Assim: foi isso que ele fez, quando me viu pela
primeira vez... no dia em que mudei para a pensão. Tive medo daquele animal, no
primeiro momento que o vi. Animais não vão com a minha cara, como se eu fosse
São Francisco que vivia com pássaros dependurados nele o tempo todo. Eu quero
dizer é que os animais me são indiferentes... como as pessoas (Sorri,
ligeiramente...) na maioria das vezes. Mas esse cachorro não me era
indiferente. Desde o começo, ele vinha rosnando para agarrar uma das minhas
pernas. Não era raivoso, não, você, sabe; era um cachorro meio trôpego; mas que
corria muito bem ainda. Entretanto, eu sempre conseguia fugir. Uma vez, ele
arrancou um pedaço da minha calça, olhe, você pode ver aqui, onde está
remendado; foi no dia seguinte à minha chegada; mas com um pontapé me livrei
dele e corri, rápida, para cima (Intrigada ) Até hoje não descobri como os
outros hóspedes se arranjam com ele; mas você, certamente, já sabe o que eu
penso; acho que era só comigo. De qualquer maneira, isso continuou por uma
semana, sempre que eu chegava: mas nunca quando eu saía. É engraçado. Ou
melhor, era engraçado. Eu poderia arrumar a mala e viver na rua por causa do
cachorro. Bem, eu estava pensando nisso um dia no meu quarto, depois de ter
corrido do cachorro até lá. E decidi. Primeiro, vou sufocar esse cachorro de
gentilezas e se isso não der certo... vou matá-lo, simplesmente. (Mary
estremece) Não reaja a nada Mary; escute, só isso. Assim, no dia seguinte, saí
e comprei um pacote de sanduíches de carne, mal passada, sem molho e sem
cebola; no caminho para casa, joguei fora o pão e guardei só a carne. Quando
cheguei à pensão, o cachorro estava esperando por mim. Entreabri a porta, e lá
estava ele no hall, esperando por mim. Entrei, com toda cautela, e não se
esqueça: com a carne na mão; abri o pacote e botei a carne no chão a uns quatro
metros de onde o cão estava rosnando para mim. Assim! Ele rosnou; parou de
rosnar; fungou, e começou a andar, lentamente; e em seguida, mais rápido; c
mais rápido na direção da carne. Bem, quando ele chegou perto dela, parou e
olhou para mim. Eu sorri; mas para experimentar a reação dele, você compreende.
Ele virou a cara para a carne, cheirou-a, fungou mais e então RRRRAAAA GGGHHHH,
desse jeito... e passou a abocanhar os pedaços. Era como se ele nunca tivesse
comido nada em sua vida, com exceção do lixo. O que devia ser verdade. Acho que
o dono da pensão só come lixo. Bem, ele comeu a carne toda, quase que tudo de
uma vez, fazendo ruídos na garganta como um homem. Então, depois que ele
terminou de comer a carne, e de ter tentado comer também o papel, ele sentou e
sorriu. Acho que ele sorriu; sei que gatos sorriem. Foi, para mim, um momento
muito grato. Então, GGRRR...,ele rosnou e avançou desta vez. Então, fui para o
meu quarto, deitei e comecei a pensar de novo no cachorro. Para falar a
verdade, eu me sentia ofendida e estava furiosa, também. Afinal, eram seis
excelentes sanduíches de carne sem molho... Eu tinha sido ofendida. Mas, pouco
depois, decidi tentar a mesma coisa por mais alguns dias. Como você deve ter
percebido, o cachorro vinha alimentando aquela antipatia comigo. E eu imaginava
que não seria capaz de superar essa antipatia. Assim, tentei por isso mais
cinco dias, mas acontecia sempre o mesmo: ele rosnava, fungava, caminhava, mais
rápido, me olhava, avançava na carne, GRRRRRR sorria, rosnava, Grrr. . . Bem, por esta época a Avenida
Treze de Maio já estava coalhada de pães e eu estava já mais enojada do que
ofendida. Portanto, decidi matar o
cachorro. (Mary ergue a mão em protesto) Oh , não fique alarmada, Mary, não fui
bem sucedida. No dia em que decidi matar o cachorro, comprei apenas um
sanduíche, de carne e aquilo que eu pensei que fosse uma mortífera porção de
veneno para rato. Quando comprei o sanduíche, disse ao homem que não se
preocupasse com o pão, porque eu só queria a carne. Esperei uma reação dele,
como: “nós não vendemos nenhum sanduíche de carne sem pão” ou, “o que é que vai fazer; segurar a
carne para comer?” Mas não: ele sorriu, embrulhou a carne em papel impermeável
e disse: “Uma mordida para seu gatinho?” Eu ai quis dizer: “Não, não é bem
isso; isto aqui faz parte de um plano para envenenar um cachorro que eu
conheço,” Mas você não pode dizer “um cachorro que eu conheço” sem ficar
engraçado; então eu disse e receio que tenha dito um pouco alto demais e de uma
maneira muito formal: É UMA MORDIDA PARA O MEU CACHORRO. Todo mundo me olhou.
Isso sempre acontece quando tento simplificar as coisas, todo mundo me olha.
Bem, isso não interessa agora. Ao voltar para a pensão, misturei com as mãos a
carne e o veneno, sentindo já, àquela altura, tanta tristeza quanto nojo. Abri
a porta do hall e lá estava o monstro, esperando para apossar-se da costumeira
oferta e, depois, saltar em cima de mim. Pobre coitado, ele jamais soube que,
no momento em que ele sorriu para mim antes de se aproximar, foi suficiente
para passar a minha raiva. Mas, lá estava ele preparando para atacar,
esperando. Botei o bolo de ,veneno no chão, aproximei-me da escada e fiquei
observando. O pobre animal engoliu a comida como de costume, sorriu, o que
quase me fez mal, e então, Grrr. . .
Eu disparei escada acima, como de costume. E aconteceu que o animal ficou
mortalmente doente Fiquei sabendo disso, porque ele passou a não me esperar mais
e por que o dono da pensão parou de beber. Ele me fez parar no hall na mesma
noite da tentativa de homicídio e me
confidenciou que Deus havia atingido seu querido cachorrinho com um golpe
certamente fatal. Ele havia esquecido de sua descontrolada sensualidade e seus
olhos estavam muito abertos, pela primeira vez. Pareciam os olhos do cachorro.
Choramingou e implorou que eu rezasse pelo cachorro. Eu quis dizer: senhor, eu,
já tenho que rezar por mim mesmo, pela bicha negra, pela família porto-riquenha,
pela pessoa que mora no quarto da frente e que eu nunca vi; pela mulher que
chora deliberadamente do outro lado da porta fechada, e pelo resto das pessoas
de todas as pensões do mundo inteiro; além do mais, senhor, eu não sei rezar.
Mas... para simplificar as coisas. .
. eu prometi que ia rezar. Ele me olhou. Disse que eu era uma
mentirosa e que provavelmente queria que o cachorro morresse. Eu respondi, e em
minhas palavras havia muita sinceridade, que não desejava a morte do cachorro.
Não queria, e não era só porque tinha sido eu quem o tinha envenenado. Receio
que tenha de lhe dizer que eu queria que o cachorro vive para ver o que
aconteceria com as nossas novas relações. (Mary demonstra seu crescente
desgosto e um antagonismo que, também, cresce, lentamente) Por favor compreenda
Mary; essas coisas são importantes. Você deve acreditar em mim; isso é
importante. Nós precisamos conhecer os efeitos de nossas ações. (Outro profundo
suspiro) Bem, de qualquer maneira, o cachorro recuperou-se. Não tenho a menor
ideia de como ou por que, a não ser que ele seja um enfeitiçado cão que guarda
os portões do inferno ou outro refúgio do mesmo tipo. Não estou bem lembrada de
minha mitologia. Você está? (Mary começa a pensar, mas Lúcia continua) De
qualquer maneira, e você já perdeu a oportunidade de ganhar por uma pergunta no
valor de oito mil dólares, Mary; de qualquer maneira, o cachorro não morreu e o
dono da pensão recuperou a sua sede, em nada alterado pelo renascimento de seu
latido. Depois de ter assistido a um filme que estava sendo levado em um cinema
da Av Ipiranga, um filme que eu já tinha, visto; depois do dono da pensão ter
me contado que seu cachorrinho estava melhor, estava certa de que ele estaria
esperando por mim. Eu estava... bem... como se diz?... seduzida?...
fascinada?... não, não era bem isso... eu estava ansiosa ao ponto de ter o
coração partido, é isso. Eu estava ansiosa ao ponto de ter o coração partido
para me ver, mais uma vez, frente à frente com o meu amigo. (Mary reage)Sim,
Mary, amigo. É a única palavra adequada. Eu estava ao ponto de ter o coração
partido, etc., para estar, uma vez mais, frente à frente com o meu amigo cão.
Entrei pela porta e avancei, sem medo, até o centro do hall. O animal estava
lá.., fitando-me. Olhei para ele; ele olhou para mim. Acho que... acho que nós
ficamos muito tempo assim...petrificados, como duas estátuas. . . olhando um para o outro. Eu
olhei mais para sua cara do que ele olhou para a minha. Eu quero dizer que
posso me encontrar durante mais tempo em olhar para a cara de um cachorro do
que um cachorro pode se encontrar em olhar para a minha, ou para qualquer outra
pessoa, tanto faz. Mas durante aqueles vinte segundos ou aquelas duas horas que
nós nos olhamos, um para a cara do outro, nós estabelecemos um contato. E era
isso que eu queria que acontecesse; eu agora gostava daquele cachorro e queria
que também gostasse de mim. Eu tinha tentado gostar dele e eu tinha tentado
matá-lo, sem sucesso. Eu esperava que isso acontecesse, mas não sei porque
esperava que um cachorro pudesse compreender alguma coisa, muito menos minhas
razões...mas eu tinha esperança. (Mary parece hipnotizada ) É que. . . é que. . . (Lúcia está estranhamente tensa,
agora)... é que se você não pode conviver com gente, você precisa tentar.., de
alguma forma COM ANIMAIS! (Muito mais rápido agora, como uma conspiradora) Você
não compreende? Uma pessoa tem que encontrar uma maneira de relacionar-se com
alguma coisa. Se não pode com as pessoas.. . se não pode com as pessoas. . . com ALGUMA COISA. Com uma cama,
com uma barata, com um espelho. . .
não, isso seria difícil demais, este seria um dos últimos passos a tomar. Com
uma barata.. . com... com. . .
com um tapete, com um rolo de papel higiênico... não, isso também não...Você
está vendo como é difícil encontrar coisas? Com a esquina de uma rua, com
muitas luzes de todas as cores refletindo no chão oleoso e seco das ruas... com
um pouco de fumaça. . .
um pouco. . , de fumaça. . .
com. . , com uma revista pornográficas, com um cofre.. . SEM
CADEADO.., com o amor, com o vômito, com o choro, com o desejo, porque com
homens de programa não são homens de programa, quando ganham dinheiro com o seu
corpo - o que é um ato de amor e eu poderia prová-lo - com o gemido, porque
você está viva, com Deus. Que tal essa? COM DEUS QUE É UMA BICHA NEGRA QUE USA
QUIMONO E DEPILA AS SOBRANCELHAS? QUE É UMA MULHER QUE CHORA DECIDIDA DO OUTRO
LADO DA PORTA FECHADA. . .
com Deus que, segundo me contaram, deu as costas a tudo algum tempo atrás...
com algum dia - com as pessoas. As
pessoas. Com uma ideia; um conceito. E que lugar melhor para transmitir uma
ideia simples do que o hall de entrada de minha pensão? Ali, seria UM COMEÇO! O
que é melhor para um começo...para compreender e, possivelmente, ser
compreendido... para um começo de entendimento do que com...(Aqui Lúcia parece
cair numa fadiga quase grotesca ).., do que com um cachorro. Simplesmente: um
cachorro. (Aqui, silêncio que pode ser prolongado por um instante ou mais,
depois, Lúcia, fatigada, termina a sua história. ) Um cachorro. . . Me parece uma idéia
perfeitamente válida. Lembre-se de que o homem é o melhor amigo do cão.
Portanto; eu e o cachorro ficamos olhando, um para o outro. Eu mais tempo do
que o cachorro. E o que eu via, então, era sempre a mesma coisa, depois desse
encontro. Agora, sempre que eu e o cachorro nos vemos, nós paramos onde
estamos. Olhando um para o outro com mistura de tristeza e suspeita e fingimos
uma indiferença mútua. Passamos um pelo outro com segurança; compreendemo-nos.
É triste, mas você tem que admitir que nós nos compreendemos. Tínhamos feito
várias tentativas de contato, mas tinha falhado. O cachorro voltou ao lixo e eu
ganhei uma passagem solitária, mas livre. Eu não voltei. Quero dizer que ganhei
uma passagem livre e solitária, se é que uma perda pode ser mais considerada
como um lucro. Aprendi que nem a delicadeza e a crueldade por si mesmas,
independentes, uma da outra, criam um resultado que as supere; e aprendi que as
duas combinadas, juntas ao mesmo tempo, criam verdadeira emoção. O que é ganho
é perda. E qual foi o resultado? Nós, o cachorro e eu, tínhamos alcançado um
compromisso. Mais do que uma troca. Não nos amamos mais, nem nos ferimos,
porque não tentamos mais nos aproximar um do outro. E quando eu o alimentava,
não era isso um ato de amor? E quando ele tentava me morder, não era isso
talvez, um ato de amor? (Silêncio. Lúcia dirige-se para o banco de Mary,
sentando-se ao seu lado. Esta é a primeira vez que Lúcia se senta durante a
peça)Fim da história de Lúcia e o cachorro. (Mary está silenciosa) Então, Mary?
(Lúcia fica subitamente alegre)Então, Mary? Você acha que eu poderia vender
esta história para "Veja" e ganhar duzentos reais na série "Meu
tipo inesquecível?" Ein? (Lúcia está muito animada, Mary perturbada) Vamos,
Mary, o que é que você acha?
Mary (Paralisada) - Eu. . . não sei. .
. não sei. . .
não compreendo...acho que não. (Quase chorando ) Por que você me contou tudo
isso?
Lúcia - E por que não?
Mary – Eu não entendi nada!
Lúcia - (Furiosa,
mas baixo) Mentira.
Mary - Não, não é mentira.
Lúcia - (Calma)Tentei explicar tudo enquanto, contava a
história. E contei devagar, ela se refere
à...
Mary - NÃO QUERO OUVIR MAIS NADA. Você não me interessa,
nem o dono da pensão e muito menos o cachorro dele...
Lúcia - O cachorro dele! Eu pensei que ele fosse meu. . . Não. Você tem razão. O cachorro
é dele, Mary. (Olha Mary decididamente, sacudindo a cabeça) Eu não sei o que
tinha na cabeça; é claro que você não pode compreender. (Monótona e cuidadosa)
Eu não moro na sua rua, não sou casada com dois periquitos ou qualquer que seja
o arranjo lá da sua casa. Eu sou uma transitória permanente, o meu lar são as
infectas pensões do lado oeste da cidade de São Paulo, que é a maior cidade do
mundo. Amém.
Mary - Desculpe... eu não quis...
Lúcia - Está bem. Desconfio que você não sabe bem o que
pensar de mim, não é?
Mary -(Tentando uma piada) A gente encontra pessoas de
todos os tipos na minha profissão. (Sorri entredentes.)
Lúcia - Você é uma mulher engraçada. (Força um riso) Sabia
disso? Você é... dotada de uma grande comicidade.
Mary - (Modesta, mas divertindo-se)Oh, não. Não sou
não.(Ainda sorri entredentes )
Lúcia - Mary, eu a deixo chateada ou. . . confusa?
Mary - (Iluminada) Bem, devo confessar que não era esse o
tipo de tarde que eu havia previsto.
Lúcia - Você quer dizer que não sou a pessoa que você
esperava.
Mary - Eu não estava esperando ninguém.
Lúcia - Não, eu não quero dizer isto. Mas você me
encontrou...eu estou aqui e não vou embora.
Mary - (Consultando o relógio )Bem, você pode ficar, mas eu
tenho de ir embora.
Lúcia - Ora, vamos; fique mais um pouco.
Mary - Eu tenho de ir para casa; você compreende que. . .
Lúcia - (Fazendo cócegas nas costas de Mary) Ora, vamos...
Mary - (Sente muita cócegas, Lúcia continua e a voz dela
vai ficando em falsete) - Não, eu. .
. OHHHHH! Pare com isso. Não faça isso. Pare. OHHHH, não,
não.
Lúcia - Ora, vamos.
Mary - (Lúcia Continua a fazer cócegas) - Oh, hi, hi, lli.
Eu tenho que ir embora. Eu... hi, hi, hi. Afinal de contas... Pare com isso,
pare, hi, hi, hi, afinal de contas os periquitos já deverão estar jantando
daqui a pouco. Hi, hi, e os gatos estão botando a mesa. Pare, pare, e, e. . . (Perdeu todo o controle ) e nós.
. . vamos. . , hi,
hi, hi. . . uh... ho.
.. ho. . . ho. . . (Lúcia pára de fazer cócegas em
Mary, mas a combinação das cócegas e suas próprias extravagâncias põem Mary
rindo quase histericamente. Durante o seu riso, Lúcia observa-a com um sorriso
curioso e fixo. )
Lúcia
- Mary?
Mary -
Oh, ha, ha, ha, ha, ha, ha, ha. O quê? O quê'?
Lúcia
- Escute aqui.
Mary -
Oh, ho, ho, ho... o que é,Lúcia? Oh...
Lúcia
- (Misteriosamente) Mary, você não quer saber o que aconteceu no Jardim
Zoológico?
Mary -
Ah, ha, ha, ha, ha. O quê? Oh, sim; o zoológico. Oh, oh,oh, oh. Bem eu tive meu zoológico
particular por um momento com...hi, hi, hi, os periquitos prontos para jantar
e. ., ha, ha, ha. . , sei lá o quê...
Lúcia
- (Calmamente) - Sim, foi mesmo muito engraçado, Mary. Não pensei que pudesse
ser tão engraçada. Mas você quer ouvir o que aconteceu no Jardim Zoológico ou
não?
Mary -
Quero. quero, sim, claro. Conte, o que aconteceu no zoológico?
Lúcia
- Agora vou lhe contar o que aconteceu no zoológico. Mas antes devo dizer por
que fui ao zoológico. Fui até lá saber de que maneira as pessoas vivem com os
animais e como os animais vivem uns com os outros e com as pessoas, também. Não
foi, provavelmente, uma experiência muito proveitosa, com todo mundo separado
do resto, pelas grades, os animais isolados da maioria dos outros e as pessoas
sempre separadas dos animais. Mas assim é que são os zoológicos. (Empurra Mary
com o braço) Chega pra lá.
Mary -
(Amistosa) Desculpe, mas você já não tem bastante espaço?
Lúcia
- (Sorrindo, ligeiramente)Bem, todos os animais estavam lá e uma porção de
gente estava lá, pois é domingo e todas as crianças, também, estavam lá.
(Empurra Mary de novo) Chega pra lá.
Mary -
(Paciente, ainda amistosa) Está bem. (Ela se afasta mais e Lúcia tem todo o
espaço que poderia .desejar. )
Lúcia
- Estava muito quente, por isso havia um mau cheiro no ar e todos os vendedores
de balão e todos os vendedores de sorvete e todas as focas latiam e todos os
pássaros gritavam. (Empurra Mary com mais força) Chega pra lá!
Mary
- (Muito aborrecida) Eu não posso chegar
mais pra lá, e pare de me bater. O que é que há com você?
Lúcia
- Você não quer ouvir a história? (Bate de novo no braço de Mary)
Mary -
(Confusa) Não sei, Só sei que não quero que me batam no braço.
Lúcia
- (Bate de novo no braço de Mary) Assim?
Mary -
Pare Com isso! O que é que há com você?
Lúcia
- Eu estou louca, sua idiota!
Mary -
Bem, agora eu não gostei.
Lúcia
- Escute aqui, Mary. Eu quero este banco. Você vai sentar naquele ali adiante,
se você for boazinha eu lhe conto o resto da história.
Mary -
(Aturdida) Mas.,. por quê? O que é que há com você? Além disso, não vejo razão
nenhuma para sair deste banco. Eu me sento aqui quase todos os domingos, à
tarde, quando o tempo está bom. É sossegado aqui. Nunca vem ninguém sentar-se
aqui; este banco sempre foi meu.
Lúcia
- (Suave) Saia deste banco... Mary. Eu quero este banco.
Mary
- (Quase Choramingando) Não!
Lúcia
- Já disse que quero este banco e vou ficar com ele. Dê o fora daqui!
Mary -
Não se pode ter tudo o que se quer. Você devia saber disso; é a lei das coisas.
Pode-se ter algumas coisas que se quer, mas não tudo.
Lúcia
- (Ri) Imbecil! Você é uma retardada mental
Mary -
Pare com isso.
Lúcia
- Você é um vegetal Vá deitar-se no chão.
Mary -
(Intensa) Agora, você vai me ouvir, seu... Já aguentei a tarde toda.
Lúcia
- Nem tanto.
Mary -
O suficiente. Já o aguentei o suficiente. Escutei o que você tinha a dizer
porque parecia que você... bem, porque pensei que você precisava conversar com
alguém.
Lúcia
- Você sabe arranjar bem as coisas, metodicamente; e apesar disso. . . oh, qual a palavra que devo
empregar para lhe fazer justiça. . . CRISTO,
você me enche... saia daqui e me dê o meu banco.
Mary -
MEU BANCO!
Lúcia
- (Empurra Mary para quase fora do banco) Suma da minha vista.
Mary
- (Retornando a sua posição ) Vá à... vá
para o inferno. É demais. Você já está demais. Eu não vou lhe dar este banco,
este banco não é seu e... acabou-se. Agora, vá embora. (Lúcia bufa, mas não se
move) Vá embora, já disse. (Lúcia não se move) Vá embora daqui.., você é uma
vagabunda... é o que você é, se você não for, vou chamar um guarda para levá-la
daqui. (Lúcia ri, fica) Estou lhe avisando, vou chamar um guarda.
Lúcia
- (Suave) Você não vai chamar nenhum guarda; eles estão do outro lado do
parque, preocupados com as "bichas", tirando-as de cima das árvores e
de trás das moitas. Eles não fazem mais nada. A única função deles é essa. Você
pode gritar até arrebentar; não vai adiantar nada.
Mary –
POLICIA ! Estou lhe avisando, você vai ser presa. POLICIA! (Pausa) Eu disse
POLÍCIA!(Pausa) Isto é ridículo!
Lúcia
- Você é que é ridícula: uma mulher deste tamanho gritando polícia numa linda
tarde de domingo no parque, sem que ninguém esteja lhe fazendo nada. Mesmo que
um guarda já tivesse terminado a ronda e aparecesse por aqui, ele ia
provavelmente pensar que você não anda bom da bola.
Mary -
(Com nojo e impotente )Deus do céu, eu vim aqui só para ler e, agora, você me
toma o banco. Você é uma louca.
Lúcia
- Ei, tenho novidades para você, como se diz. Tomei conta do seu precioso banco
e você nunca mais vai tê-lo de volta.
Mary -
(Furiosa) Saia do meu banco. Não me interessa que eu esteja agindo com bom
senso ou não. Eu quero este banco para mim e quero que você SAIA DAQUI!
Lúcia
- (Zombando) - Oh. . , olha só quem enlouqueceu, agora !
Mary -
Saia!
Lúcia
- Não.
Mary -
ESTOU LHE AVISANDO!
Lúcia
- Você não imagina como você está se tornando ridícula!
Mary -
(A fúria apossou-se dela) Não me interessa (Quase chorando) SAIA DO MEU BANCO!
Lúcia
- Por quê? Você tem tudo o que quer no mundo. Você falou de seu lar, de sua
família, de seu pequeno Jardim Zoológico. Você tem tudo e agora quer também
este banco. Você acha que uma mulher deve lutar por essas coisas? Diga, Mary,
este banco aqui, esta madeira, este banco representa a sua honra? É por ele que
você acha que deve lutar? Você pode imaginar alguma coisa mais absurda?
Mary -
Absurda! Olhe, eu não vou discutir honra com você nem tentar explicá-la. Além
disso, não é uma questão de honra. Mas mesmo que fosse você não entenderia.
Lúcia
- (Com desespero) Você não sabe do que está falando, sabe? Esta é provavelmente
a primeira vez em toda a sua vida que você tenta enfrentar alguma coisa mais
difícil do que limpar a latrina de seus gatos. Estúpida ! Você não tem ideia, a
menor ideia daquilo que as outras pessoas precisam?
Mary -
Oh, minha senhora escuta aqui você não precisa deste banco. É claro que não.
Lúcia
- Preciso sim; preciso.
Mary -
(Tremendo) Há anos que venho aqui; tenho tido momentos de grande prazer, de
grande satisfação, aqui, neste banco. E isso é importante para uma mulher. E
sou uma mulher de responsabilidade, sou uma mulher ADULTA. Este banco é meu, e
você não tem nenhum direito de me tomá-lo.
Lúcia
- Então, lute por ele. Defenda-se; defenda seu banco.
Mary -
Você está me forçando a fazer isso. Levante e brigue.
Lúcia
- Como uma mulher ?
Mary -
(Furiosa) Sim, como uma mulher, já que você insiste em zombar de mim.
Lúcia
- Tenho de lhe dar crédito por uma coisa, Mary; você é um vegetal, e ainda por
cima, levemente, míope. . .
eu acho.
Mary –
CHEGA !
Lúcia
- ... mas, você sabe, como eles costumam falar na televisão o tempo todo, você
sabe, e eu falo, sinceramente, Mary, você tem uma certa dignidade; isso me
surpreende...
Mary –
Pare !
Lúcia
- (Levanta-se preguiçosamente) Muito bem, Mary, nós lutaremos pela posse deste
banco, mas será uma luta desigual. .
. (Tira do bolso e abre com um clique uma faca assustadora. )
Mary -
(Subitamente à esperta com a realidade da situação ) Você está louca ! Você
está louca varrida !VOCÊ VAI ME MATAR ! (Mas antes que Mary tenha tempo para
pensar no que vai fazer, Lúcia atira a faca a seus pés. )
Lúcia
- Aí está. Apanha. Você apanha esta faca para que a luta possa ficar de igual
para igual.
Mary -
(Horrorizada) Não?
Lúcia
- (Atira-se sobre Mary, agarra-a pelo colarinho. Mary levanta-se: suas faces
quase se tocam) Agora você apanha a faca e lute comigo. Você vai lutar pelo seu
amor próprio; vai lutar por este maldito banco.
Mary -
(Esforçando-se) - Não. . . Deixe.
.. deixe eu ir embora! ela. . . socorro!
Lúcia
-(Esbofeteia Mary) Lute, sua filha da puta; lute por seu banco; lute por seus
periquitos; lute por seus gatos; lute por suas duas filhas; lute por seu
marido; lute por sua feminilidade; verme insignificante. (Cospe no rosto de
Mary) Você nem pode fazer um filho macho deu para seu marido.
Mary -
(Escapa, enfurecida)Isso é uma questão de genética e não de capacidade, sua. . . sua... monstro.(Afasta-se e apanha a faca, recua um
pouco, ela respira com dificuldade) Vou-lhe dar a ultima chance; suma daqui e
me deixe em paz! (Segura a faca com o braço firme, mas à certa distância, na
sua frente, não para atacar, mas para se defender. ) .
Lúcia
- (Suspira profundamente) Que assim seja ! (Atira-se contra Mary e empurra o
corpo contra a faca , há luta, às vezes uma luta grotesca em que Mary se faz de boxeadora, trançando
pernas, empunhando para socar, gemidos de luta, elas se dirigem ao fundo do
palco / Lucia perde a faca / Mary pega a faca / fica mais decidida / Lúcia mais
arrogante parte para cima cuspindo e dando tapas / quando percebe que Mary
não tem coragem ela se volta e vai e se afasta. Nesse momento, no fundo do
palco, Mary esfaqueia Lúcia varias vezes e esta cai. Lucia grita o som de animal fatalmente ferido com a faca
enterrada. Mary foge chorando com muito volume e antes que a peça termine, em
resistência que desce, anda ouvimos soluços lá de fora.
Fim, pano
Comentários
Postar um comentário