O APLAUDIDO DRAMATURGO...

O APLAUDIDO DRAMATURGO
CURADO PELAS PÍLULAS PINK
Roteiro de Coelho De Moraes
baseado na obra de Natália Corrêa (1923)
Personagens:
Homem, Dramaturgo; Mulher; Gerente;  
duas pessoas quaisquer para cena final.




CENA 1  (Giovanna)
EXT. DIA. RUA
(Homem, de pasta na mão, paletó e gravata, pelas ruas. A cada momento em circunstâncias diferentes, na rua, pelas esquinas, encontra o Dramaturgo, este, a cada momento, com roupas diferentes, rosto pintado de colorido, muito loquaz, cheio de mesuras)

DRAMATURGO
 Eu sou o aplaudido dramaturgo curado pelas pílulas pink.
(A cena desses encontros se repete inúmeras vezes com cortes variados e bruscos. Finalmente Homem, de saco meio cheio, entra num restaurante ou bar fechado ou  café e senta-se à mesa pedindo algo com os dedos. Dramaturgo  senta-se à sua mesa, intrometido)
O senhor me dá licença? Vale a pena a compra que vai fazer!
(Mostra um book com folhas plásticas)
Carrinhos para bebês, carros nupciais, féretros ou carros de corridas... somos a empresa que mais transporta e que mais oferece bons transportes.

HOMEM
 Mas, afinal de contas, o senhor é dramaturgo ou vendedor de automóveis?

DRAMATURGO
(o olha com admiração)
A lista telefônica é uma aflição de personagens em busca de um autor. Pirandello roubou essa minha ideia, mas eu não ligo... por isso eu me separo da dramaturgia para entrar nos domínios da religião
(sorri, orgulhoso)
o que é contra os meus desígnios pois só a dramaturgia pode demonstrar a existência de Deus.


CENA 2
INT. HALL. HOTEL
(Homem entra no Hotel ou no hall.  DRAMATURGO o encontra inesperadamente,  estendendo um cartão...)

HOMEM
(lendo)
Eu sou o aplaudido dramaturgo curado pelas pílulas pink.

DRAMATURGO
(feliz)
Exato! Claro! Uma mulher!

HOMEM
Como?

DRAMATURGO
O senhor precisa de uma mulher.
Oh! Não me refiro às vis necessidades fisiológicas.
Bem vê, não sou um alcoviteiro.
Preocupo-me, sim, com os aspectos morais da solidão.
O homem solitário é um perigo.
(andam pelo corredor, DRAMATURGO com a mão sobre o ombro de HOMEM).
Uma perversão com riscos dramáticos para toda a Humanidade.
Para não julgar que exagero... lembro-lhe da bomba atômica.
Se o senhor não sentir hoje uma mulher nos seus braços, nada nos garante que esta mesma noite o senhor mesmo  não incendeie a cidade.
(Homem vai reagir)
Não proteste! Vou resolver o assunto. Dentro de meia hora terá no seu quarto aquela a quem esta cidade terá de agradecer por não ter desaparecido numa catástrofe.

CENA 3
(HOMEM está tomando banho. Batem à porta insistentemente. Sai molhado em toalhas. Entra uma mulher excelente,  bela, charmosa, sensual, com roupas sensuais e movimentos e gestos eróticos, animais. HOMEM começa a se envolver. Se abraçam, gemem. Batem à porta. HOMEM hesitando entre deixar e ir abrir a porta, no fim abre. É o gerente. Ele está sério, mas de repente fica sorridente amarelo.
Tenta olhar para dentro, insistentemente).

GERENTE
 Senhor? Este nosso respeitável hóspede apresentou uma reclamação
(a mulher se cobre com lençol. O reclamante, que não estava visível, avança, sério)

DRAMATURGO
Eu sou o aplaudido dramaturgo curado pelas pílulas pink.

HOMEM
Mas... Você outra vez...

DRAMATURGO
Não há mas... nem meio mas...
Sou um dramaturgo, o que quer dizer que eu moralizo a cidade.
(entra, seguido do gerente a vistoriar o local).
O senhor sofre o império da corrupção que eu combato.
Esta pobre mulher que recebe dinheiro para satisfazer o seu vício...
(verifica a toalha de HOMEM)
... é a prova de que o senhor é um fomentador da guerra.
(levanta o lençol da moça, o gerente repete servil).
Porque a guerra não é mais do que um desenvolvimento lógico da libertinagem. Demonstro isso, claramente, nas minhas peças.


CENA 4  (Arruda)
INT. DIA. Escritório.
(Entra repentinamente um mal educado com modos revolucionários,  apoiando a mão na mesa, olhando cara a cara)

DRAMATURGO
Eu sou o aplaudido dramaturgo curado pelas pílulas pink.

HOMEM
Meu caro senhor. Conheço suas intrigas.
Conheço sua multidão de caras.
Não voltarei a cair nas armadilhas de seus favores.

DRAMATURGO
Perdão, amigo. Sou um dramaturgo de vanguarda.
Combato a velha dramaturgia que vive do triângulo clássico.
Mas, a vida persiste em ser acadêmica.
Impõe uma realidade que é uma justificação da arte dramática conservadora.
O senhor é o perfeito exemplar do argumento que essa fauna reacionária usa para rebater as minhas teorias. Cumpre-me chamar-lhe a atenção de que está colaborando para o atraso do espírito, permitindo que a sua mulher o atraiçoe.

HOMEM
 (parte para cima do outro, claramente irritado )
 Cai fora daqui. Suma da minha frente.

DRAMATURGO
Eu sei onde ela vai. Eu sei onde ela fica.

HOMEM
 Mas, eu não sei por que a minha secretária permitiu que você entrasse.

DRAMATURGO
Eu sei em que apartamento ela fica... com o outro.

HOMEM
(empurrando o sujeito)
Vai embora... não me faça perder tempo e paciência.

DRAMATURGO
(sai, mas, deixa  no chão um papel amassado)
Isso mesmo, não perca mais tempo.
Se se apressar, poderá apanhá-los agora mesmo em flagrante delito.
(HOMEM ouve a porta se fechar. Hesita. Pega o papel, lê. Joga fora. Volta para a mesa. Tenta trabalhar. Tenso. Abre a gaveta e pega o revolver.)


CENA 5
(Funde imagem com o HOMEM entrando violentamente porta adentro no mesmo apartamento anterior. HOMEM se aproxima e ouve gemidos. Entra, o quarto está em penumbra, e vê a mulher trepada em cima de outro sujeito.)

HOMEM
 Enfrenta a morte, miserável!
(a mulher, mesmo nua, se arrasta pelo chão, pedindo perdão, aos pés de HOMEM).

DRAMATURGO
(que era o sujeito com  a mulher)
Espere... espere... não é o que você está pensando... eu não sou um vulgar sedutor de mulheres casadas.
O senhor é o culpado de tudo isso.
Nunca percebeu que sua mulher era uma personagem?
Eu não podia ser insensível a este fato.
Fique sabendo que me encontro no aborrecido exercício de um dever profissional.
Sou um dramaturgo...
(enquanto fala HOMEM olha para a mulher e lhe dá o revolver, tomando as mãos da mulher, adequando as mãos ao gatilho,  apontado para o sujeito)
... o aplaudido dramaturgo curado pelas pílulas pink.

HOMEM
(para a mulher)
Para me convencer de seu arrependimento.
(e sai / enquanto no corredor soam dois tiros / ele para um tanto, mas, segue)


CENA 6 (Laura)
INT. ESCRITÓRIO
(HOMEM lendo jornais.
O jornal mostra que a mulher se matou no HOTEL.
Imagem de meia página)

HOMEM
 (pensando / voz off)
Ela terá feito desaparecer o corpo do tal dramaturgo?
(sorriso de mofa).


CENA 7 (Laura)
EXT. PRAÇA. DIA
(HOMEM passeando pela praça como turista e tirando fotos, em rua de maior movimento. Alguém se aproxima, enquanto HOMEM observa uma Igreja. O rosto da personagem não aparece. Enquanto fala HOMEM se enerva e se controla).

DRAMATURGO
Tenho estado a observá-lo. O senhor atravessa uma crise moral. Não negue.
O seu interesse pelas coisas antigas não me engana.
Gosta de portas carcomidas por carunchos?
Está, portanto em perigo da mais atroz desumanização que culminará no desejo de destruir o seu semelhante.
Sei o que digo.
Conheço os homens por dentro, o que não admira, visto que...
(puxa um cartão)
... permita que me apresente, sou o aplaudido dramaturgo curado pelas pílulas pink.
(HOMEM empurra o sujeito para trás e se fasta)
Acho muito conveniente que guarde uma recordação desse nosso encontro.
Sugiro que tire uma foto.
(HOMEM para, se volta. DRAMATURGO posa para a posteridade,  entre duas pessoas quaisquer que ele toma na rua.
E HOMEM, sem nenhuma emoção bate a foto, sem mesmo olhar pelo visor).

CENA 8
(HOMEM está esperando a revelação da foto. Pegando a foto percebe que só há as duas pessoas que ladeiam um espaço vazio. HOMEM olha para cada lado da rua. Joga a foto fora e vai embora. Ao fundo, enquanto há o crédito final, um palhaço se aproxima de HOMEM que não dá mais bola, desolado. O palhaço fala muito, é muito gestual, circula em volta de HOMEM enquanto se afastam).                                      


MIF

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